29.3.05
Era uma cefaléia pra Minerva nascer de novo
Mas foi bem quando eu ouvi o escuro
E vi o silêncio do mato, soberanos como seu rei.
Com os sete orifícios da minha cabeça
Eu comi a noite.
coisas da JAMILA MAIA - 3:58 PM
coisas da JAMILA MAIA - 3:58 PM
24.3.05
coisas da JAMILA MAIA - 9:50 PM
13.3.05
CARNE
coisas da JAMILA MAIA - 1:16 PM
E fez-se o verbo:
_________________________________________________
E fez-se o verbo:
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Hoje levei uma cantada de um senhor de mais de 70 anos, no metrô. Queria que esse texto fosse ficção, meu Deus.
* * *
Seu Zezinho puxou papo reclamando do calor e lamentando a viuvez. Dei-lhe uma atenção gentil, caridosa, por ter idéia da solidão que acomete os idosos hoje em dia nas cidades grandes. Falei de amenidades, mas ele se queixava da solidão, da dificuldade de encontrar uma companheira. Perguntei se ele não ia a bailes de terceira idade. Ele disse que não era muito chegado. E que meu cabelo deveria ser bonito quando comprido. Agradeci, olhando para o cinza do túnel. Aí...
ELE: Então, gostou do papo?
EU: Ehr... sim, acho importante que as pessoas conversem na rua hoje em dia. Sinto que as pessoas têm medo umas das outras em cidades grandes e...
ELE: Você não quer me dar uma chance? Um telefone, pra gente conversar mais...
EU: Desculpe, mas isso foge um pouco dos meus hábitos. Não posso dar meu número para o senhor.
ELE: Mas eu sou um cara gente fina, viu?
EU (constrangida): E eu tenho 23 anos...
Desci do trem na estação seguinte, incrédula. Na escada rolante, um acesso de riso nervoso. Na rua, um misto de pena e espanto.
Seu Zezinho havia saído de sua casa na zona norte para visitar um amigo no Jabaquara, no extremo oposto da cidade. Não tendo encontrado o sujeito em casa, deu-me o pacote de biscoitos que levava para o filho do ex-colega na Varig ("bons tempos", ele lembrou).
Aquelas bolachas acabaram ganhando o tamanho do vazio do pobre velho. Eu as comi mais tarde, refletindo sobre a incompletude que tanto angustia as pessoas do nosso tempo. Pensamos todos sermos metades. E aí tentei perceber o que estar "sozinha" siginifica na minha vida.
Agora, me apresso em entender-me inteira, em ser doce como o recheio de baunilha dos biscoitos - comigo mesma. Não sei se o seu Zezinho é alguém desesperado, se está gagá, se perdeu o senso de ridículo - ou se é um romântico inveterado.
Só sei que o ser humano é um bicho complicado, viu.
E fez-se o verbo:
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A carne pulsa. A carne viva.
Carne que sou eu e você, mas só até amanhã.
E fez-se o verbo:
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JAMILA MAIA
23 primaveras/cor-de-flicts/brasileira
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